Depois do estresse de 2024/25, está claro: precisamos de um novo modelo de risco no agro
Uma lição que esse stress todo de 2024/2025 deu ao agro foi essa: precisamos mudar a forma que medimos o risco de um recebível do agro.
O modelo de risco atual do agro é emprestado do modelo de risco para financiamento de capital de giro para uma indústria ou varejo em geral: você olha capacidade de geração de caixa, patrimônio, alavancagem, histórico de pontualidade e garantias. Os tradicionais 5C.
Obviamente, olhamos (e devemos continuar a olhar) para essas coisas todas, mas me parece, neste cenário novo, que isso só não é mais suficiente. O crédito de custeio - dinheiro usado para comprar insumos como semente, fertilizante e defensivo - é extremamente exposto ao resultado da safra.
Mesmo que o produtor tenha patrimônio e algum acesso a crédito de longo prazo, caso a conta não feche dentro da safra, ele vai atrasar o boleto e pedir para negociar.
E o credor tende a aceitar, porque o processo de liquidação das garantias é caro, custoso e destrói o relacionamento. Você quer continuar a vender para ele no futuro. Isso é um comportamento amplamente normalizado no setor.
Isso faz com que tenhamos que olhar muito mais de perto para a capacidade do produtor de extrair um bom resultado na safra.
Coisas como:
- A vocação agronômica da terra;
- Modelo de manejo escolhido;
- Disponibilidade e estado do maquinário;
- Descolamento das cotações de insumos com o preço de vendas dos grãos.
- Capacidade de fazer duas safras dentro da janela de chuva
Os créditos dados para as revendas em geral, seguem o mesmo padrão. Com os altos níveis de alavancagem e as margens líquidas atuais da distribuição de insumos, se uma parte dos clientes da revenda não fechar no azul, vão atrasar os boletos.
A revenda, sem muita reserva líquida e sem margem para segurar, provavelmente vai precisar renegociar os próprios financiamentos com as indústrias e com os bancos.
No final, mesmo revendas com o balanço forte, e com os 5C fortes, são extremamente vulneráveis à capacidade de pagamento dos clientes na sua carteira.
Então, se você quiser mitigar o risco das revendas, além do balanço, vai precisar olhar para as mesmas coisas (a vocação agronômica, manejo, capacidade de maquinário, descolamento das cotações e o risco de falta de chuva) no agregado dos produtores da carteira de crédito.
O risco de verdade está ali.
São informações que hoje, em geral, não estão disponíveis para cima na cadeia. No melhor cenário, apenas a revenda conhece estas informações dos produtores que atende.
Estou, como sempre, otimista com o futuro, as empresas sempre se adaptam. Mas acho improvável voltarmos a prêmios de risco razoáveis no setor sem resolver isso antes.
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